Sé Catedral da Guarda

Erguida sobre a cidade mais alta de Portugal, a Sé da Guarda é um dos mais notáveis monumentos da arquitetura religiosa medieval portuguesa. Iniciada em 1390, por ordem do bispo D. Afonso Correia, a sua construção prolongou-se por mais de dois séculos — cicatriz visível numa silhueta que conjuga o gótico tardio com elementos do Renascimento e os primeiros lampejos do Manuelino. Em granito da Beira, material que lhe confere uma austeridade quase monástica, a catedral afirma-se no centro histórico da Guarda como uma fortaleza da fé, imortalizada pelos quatro efes que a tradição popular lhe atribui: forte, farta, fria e feia — embora esta última qualificação a história não confirme.

A fachada e o exterior apresentam uma imponência que o granito cinzento torna ainda mais solene. As torres, os pináculos e os contrafortes compõem uma silhueta que evoca tanto a austeridade das catedrais ibéricas tardo-medievais como a exuberância decorativa que o período manuelino introduziu nos remates e nos portais. A estátua de D. Sancho I, fundador da cidade em 1199, vela a praça que a antecede.

A nave central estende-se em comprimento e verticalidade, com os seus arcos quebrados a guiar o olhar invariavelmente para a cabeceira. A solução estrutural gótica — pilares fasciculados, arcos ogivais e uma proporção que privilegia a altura sobre a largura — cria uma tensão contemplativa que o tapete vermelho acentua, como um caminho traçado entre o humano e o sagrado.

A abóbada de cruzaria é, porventura, o elemento que mais convida à contemplação estática. As nervuras de pedra entrecruzam-se em padrões estrelados, solução característica do gótico tardio peninsular, onde a geometria serve simultaneamente a estrutura e a beleza. No fecho das abóbadas, os elementos decorativos revelam a transição para o gosto manuelino, tornando cada vão numa pequena composição autónoma de pedra.

A nave lateral revela, com maior intimidade, a qualidade do trabalho dos canteiros: os arcos formeiros abrem-se sobre um espaço de penumbra dourada onde a luz entra oblíqua, revelando a textura do granito trabalhado. Aqui, a escala humana recupera os seus direitos perante a grandiosidade da nave central.

A capela-mor é o núcleo iconográfico do conjunto. O monumental retábulo em pedra calcária — executado entre 1498 e 1518, atribuído à oficina de João de Ruão e seus contemporâneos, numa linguagem de transição entre o gótico e o Renascimento — organiza-se em registos sobrepostos com mais de cem figuras esculpidas, representando cenas da vida de Cristo e da Virgem, ladeadas por apóstolos e santos. É uma obra de teologia em pedra: uma Suma visual destinada a um tempo em que a imagem era o texto dos que não sabiam ler.

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